Dia do Trabalho

Nesta data histórica que é o Dia do Trabalho, ou melhor, dos Trabalhadores, conseguimos reunir nossos dois assuntos preferidos – trabalho e pessoas. A seguir, falaremos sobre: o contexto histórico da data, o trabalho nos dias atuais, a importância do propósito no trabalho, os possíveis efeitos do trabalho na nossa saúde e ainda traremos sugestões de filmes e ações em relação ao tema!

Vamos nessa?

Como surgiu?

O Dia do Trabalho é uma data comemorativa internacional dedicada aos trabalhadores, marcando as lutas por direitos trabalhistas transcorridas desde o final do século 19, a segunda fase da Revolução Industrial. Celebrada anualmente no 1° de maio em vários países do mundo, é considerada feriado em cerca de 80 deles, como aqui no Brasil.

A homenagem remonta ao dia 1 de maio de 1886, quando uma grande paralisação foi iniciada por trabalhadores na cidade de Chicago (EUA) com o objetivo de reivindicar melhores condições de trabalho, principalmente a redução da jornada diária, que chegava a 17 horas. Assim como em solo britânico, as fábricas norte-americanas eram locais insalubres e a situação era precária, o que provocou um grande descontentamento na classe trabalhadora. Seu lema nas ruas foi “Oito horas por dia sem cortes no pagamento” (“Eight-hour day with no cut in pay“).

Essa manifestação serviria de inspiração para muitas outras que se seguiriam. O movimento se espalhou pelo mundo e, no ano seguinte, trabalhadores de países europeus também decidiram parar por protesto. Em 1889, organizações sindicais reunidas em Paris decidiram que a data se tornaria uma homenagem aos trabalhadores que haviam feito greve três anos antes.

As lutas não foram em vão: trabalhadores de todo o mundo conquistaram uma série de direitos e, em alguns países, tais direitos ganharam códigos de trabalho e também estão sancionados por Constituições. Em 1890, por exemplo, a luta dos trabalhadores norte-americanos fez com que o Congresso aprovasse a redução da jornada de trabalho para 8 horas diárias. Mesmo em países em que o 1° de maio não é feriado oficial, são organizados nesse dia atos em defesa dos trabalhadores.

E no Brasil?

As comemorações de 1º de maio no Brasil remontam à década de 1890, período contemporâneo à Primeira República e ao início da industrialização no país. A chegada dos imigrantes europeus no início do século 20 contribuiu para o fortalecimento das organizações sindicais, aumentando a utilização da data para a realização de protestos trabalhistas.

Em 1917 aconteceu a Greve Geral em São Paulo, movimento responsável por parar a indústria para reivindicar direitos, tornando-se um dos primeiros marcos da organização trabalhista no Brasil. A crise continuou nos próximos anos e em 1924 o presidente Artur Bernardes declarou 1º de maio como feriado nacional.

Durante a Era Vargas, o governo procurou ressignificar a data: de um dia de protestos, para uma ocasião que celebrasse os direitos trabalhistas, medida que ia de encontro com a política populista deste governo. O dia foi, então, utilizado para o lançamento de leis importantes para os trabalhadores, como o estabelecimento do salário mínimo, em 1940, e a CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas), em 1943.

O trabalho nos dias atuais

Para falar da relação das pessoas com o trabalho nos dias atuais, escolhemos o professor da Escola de Negócios da Universidade de Stanford, Jeffrey Pfeffer, um dos maiores especialistas em comportamento organizacional, e autor de 15 livros sobre o tema. Segundo ele, o fato de direitos importantes terem sido conquistados não significa que as condições de trabalho hoje sejam ideais, ao contrário: devemos mais do que nunca seguir estudando, discutindo e refletindo a respeito do assunto e, acima de tudo, lutando para encontrar soluções efetivas para melhorar cada vez mais a relação das pessoas com o trabalho.

Entrevistado pelo Valor Econômico em passagem pelo Brasil, em setembro de 2019, Pfeffer falou sobre alguns problemas no mundo corporativo atual, como tensões psicossociais, longas horas de jornada e crescentes tendências para depressão, estresse e doenças crônicas causadas ou relacionadas ao trabalho. Ele ressalta a necessidade da criação de políticas públicas a respeito desse tema, e que tanto governos quanto empresas são responsáveis pelas melhorias que devem ser feitas na questão do trabalho.

O pensador também discute a gig economy e como a flexibilidade não é necessariamente sinônimo de benefícios: estar inserido nessa economia alternativa muitas vezes se traduz em trabalhar muito, ganhar pouco e viver em incerteza constante. Aplicando isso ao cenário atual da pandemia, trabalhadores desse meio facilitam muito a vida cotidiana das pessoas, mas muitos continuam trabalhando em vulnerabilidade, tanto por ainda não terem muitos direitos, quanto por precisarem se expor e arriscar sua saúde para sustentarem a si e suas famílias.

Time saudável, empresa saudável

Ao falar sobre a importância da saúde das pessoas, Pfeffer diz que há um grande benefício para uma empresa em ter uma força de trabalho saudável: trabalhadores saudáveis são mais produtivos e perdem menos trabalho por não estarem doentes, o que evita que eles se demitam e reduz a rotatividade. Ser workaholic, por exemplo, pode acabar sendo realmente tóxico: ele exemplifica com casos comuns de pessoas que usam substâncias diversas, legais e ilegais, a fim de se manterem “ligadas” para realizar seu trabalho. Os efeitos negativos do trabalho geralmente não são imediatos, mas se acumulam com o tempo e podem ser extremamente prejudiciais.

O teórico também critica muitas as atuais empresas por não se sentirem responsáveis por suas pessoas e talvez somente por seus acionistas, fruto de uma sociedade automatizada, destacando que as empresas deveriam se considerar (e agir como) comunidades, tratando seus colaboradores como uma família e cultivando relacionamentos de longo prazo.

Pfeffer afirma que estamos num caminho economicamente insustentável, a menos que consertemos o trabalho em nossa sociedade. Os custos de saúde, que só aumentam – especialmente no contexto dos EUA, que não tem um sistema de saúde público gratuito e é, aplicando novamente à crise atual, o país com maior número de mortes por coronavírus em todo o mundo – é outro fator que só piora o cenário.

Promover a prevenção, para o acadêmico norte-americano, é de extrema importância. Além disso, independente do que você garanta às pessoas [de material], o que elas realmente querem é trabalhar com autonomia, um bom chefe que as respeite e a oportunidade de equilibrar suas várias obrigações – e isso com algum senso de segurança, conclui Pfeffer.

O papel do RH é educar”

Na entrevista, Pfeffer também fala sobre o setor de Recursos Humanos. Conta que, ao menos nos EUA, o RH geralmente acaba focando em corte de custos e em fazer o que CEO manda. Ele critica esse comportamento, pois acredita que o RH deveria cumprir o papel fundamental de educar os líderes sobre como tornar as organizações bem sucedidas e produtivas para atrair, reter e motivar as pessoas.

“A maneira como você se conecta com o CEO é trazendo conhecimento e discernimento, não apenas simplesmente o obedecendo”, opina. O RH deve trazer sua própria perspectiva, da mesma forma que o Financeiro e o Marketing, por exemplo, mostram seus pontos de vista específicos de cada área – e, mais importante, deve-se defendê-los.

Pfeffer ainda indica que, para o RH se tornar mais significativo para o CEO, precisa investir tempo em aprender e prestar atenção às evidências, dados e pesquisas, além de desenvolver mais habilidades políticas, afinal, para ter sucesso, não basta só fazer um bom trabalho: é necessário saber jogar bem a política organizacional, afirma.

Efeitos negativos do trabalho

Em outro vídeo de Jeffrey Pfeffer para o canal da Universidade de Stanford, o professor ressalta como o combo horas excessivas + muito estresse relacionados ao trabalho está nos matando. É fato que nossa mente afeta nosso corpo, e estados e atitudes mentais como o estresse impactam enormemente o fisiológico, baseado no que a literatura epidemiológica estuda e mostra há muito tempo. Tudo isso afeta verdadeira e profundamente o bem-estar das pessoas e influi na hora de selecionar um trabalho.

Como efeitos do estresse e exposição à outras condições de trabalho nocivas, são registradas, nos EUA, cerca de 120.000 mortes anuais relacionadas ao trabalho, e um gasto de 200 bilhões de dólares com cuidados em saúde que poderiam ser economizados caso houvesse prevenção e um ambiente de trabalho saudável. A falta de um plano de saúde, segundo Pfeffer, é um dos piores estressores.

Mas o teórico nos dá esperança: da mesma forma que nossa sociedade conseguiu fazer, por exemplo, com que não fumassem mais no ambiente de trabalho comum visando um bem-estar coletivo, deveria ser necessária uma verdadeira intervenção em como o trabalho funciona, hoje com uma “poluição social”. As empresas precisam ter responsabilidade social, e o dever de promover e garantir segurança financeira, saúde, justiça e uma verdadeira flexibilidade para seus trabalhadores. É importante que entendam o custo de suas ações e que aprendam com isso para tomar decisões melhores e economicamente mais racionais.

Trabalho com propósito

O trabalho tem em sua origem a potência coletiva de liberdade e transformação, mas ao longo da história acabou sendo deturpado de modo a ser exploratório, em muitos casos.

O que precisamos fazer é mudar e melhorar nossa relação com o trabalho, retornando ao seu sentido essencial: nós, como sujeitos sempre inseridos em um coletivo, e a relação de ser protagonista do próprio trabalho, encontrando verdadeira autonomia, deixando para trás a falta de identidade que pode trazer consequências negativas tanto para as pessoas quanto para as empresas. Para que isso aconteça, como o professor Pfeffer disse, os governos e empresas precisam fazer a sua parte, escutando e buscando compreender de verdade os colaboradores, descobrindo seus propósitos e fazendo do ambiente de trabalho um lugar melhor para todos, independente do setor, cargo, idade ou qualquer outro fator.

As pessoas estão cada vez mais buscando trabalhar em organizações que tenham um propósito claro e um impacto positivo na sociedade. Na prática, não é difícil diferenciar uma empresa com propósito genuíno e uma que o tenha da boca pra fora. Para as empresas, a única maneira de preencher uma lacuna de propósito é incorporar sua reflexão, investigação, discussão e ação no coração dos seus negócios e da sua organização. Conecte o propósito ao “superpoder”, ao que torna a empresa única. Corra atrás, organize-se, avalie. Conheça seu propósito individual antes de tudo.

Aprecie seus colaboradores também em home office

Seja no Dia do Trabalho ou não, é importante, mesmo remotamente, agradecer, recompensar e demonstrar apreciação aos trabalhadores de uma empresa, caso você tenha uma. Esse tipo de atitude motiva as pessoas a trabalharem ainda melhor e faz com que elas se sintam parte do time e da empresa, humanizando e estreitando as relações.

Vão aqui algumas sugestões:

  • Elogie, parabenize, dê feedbacks positivos, deixe claro quando você gostou do trabalho de alguém, seja por escrito, áudio ou vídeo, de forma pública ou privada
  • Eventualmente, libere seu time uma hora (ou mais) antes para descansarem ou aproveitarem um pouco mais o fim de semana
  • Dê um dia de folga
  • Não faça só calls sobre trabalho, mas também sobre a vida pessoal, happy hours e outros
  • Compre um vale-presente ou envie algo surpresa (uma lembrancinha, um cartão, um café, um chocolate, algo que te lembrou essa pessoa…)

Nunca se esqueça do valor que trabalhadores de “colarinho azul” e autônomos têm – principalmente num contexto como o desta pandemia. Muitas dessas pessoas não têm o privilégio de estar em casa, outras estão praticamente sem fonte de renda. Atente-se mais para elas por estarem em maior vulnerabilidade e terem uma remuneração menor em nossa sociedade. Eles são, também, heróis: não só médicos e demais profissionais da saúde, mas também as pessoas que trabalham com limpeza, com entregas, na farmácia, nos supermercados – são sim, essenciais. Eles e elas correm um risco alto todos os dias e merecem todo o respeito, reconhecimento e recompensa.

Algumas sugestões de como apoiar:

  • Doar para pessoas e projetos confiáveis
  • Ajudar a se inscrever no auxílio emergencial
  • Ajudar a arrumar emprego caso esteja sem ou buscando outro
  • Comprar de pequenos produtores
  • Divulgar o trabalho dessas pessoas com responsabilidade
  • Doar máscaras e outros equipamentos de proteção individual
  • Ajudar nos custos e subsidiar meios para pessoas gerarem seu sustento
  • Pagar comida/refeição para entregadores como forma de agradecimento
Créditos: @RazoesParaAcreditar

Se você tiver mais ideias, não deixe de comentar!

Bônus: Dicas de Filmes

Por fim, para contribuir com a conscientização a respeito de cenários de trabalho diversos no Brasil, selecionamos alguns documentários para recomendar, vencedores de prêmios nacionais e internacionais. Todos estão disponíveis online na íntegra:

Carne, Osso: Documentário alia imagens impactantes a depoimentos que caracterizam o duro cotidiano do trabalho nos frigoríficos brasileiros de abate de aves, bovinos e suínos.

Não Respire – Contém Amianto: Da mineração à construção civil, veja como milhares de trabalhadores estão expostos aos riscos do amianto.

GIG – A Uberização do Trabalho: O trabalho mediado por aplicativos e plataformas digitais cresce no mundo todo. Mas o avanço da gig economy vem despertando debates sobre a precarização e a intensificação do trabalho.

Fontes:

Como Surgiu O Dia do Trabalho?

Purpose: Shifting From Why To How

Remote Ways To Show Appreciation To Your Work From Home Employees

Why You Should Reward and Recognize Your Blue-Collar Employees

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